
Trekking · Caminhada em Lukla, Nepal
Everest Base Camp com Vale de Gokyo
Por Carol e Marcos Varella · Atualizado em · Fomos 2 vezes, a última em maio de 2022
O trekking ao Everest Base Camp (EBC) com o Vale de Gokyo, no Nepal, sai de Lukla, sobe até Namche Bazaar, desvia para os lagos de Gokyo e o Gokyo Ri, cruza o Chola Pass até o Vale do Khumbu e chega ao campo base do Everest, a mais de 5.300 m. Fizemos no fim de abril de 2022, em 14 dias, e foi uma das maiores aventuras das nossas vidas.
São uns 129 km e mais de 10 mil metros de subida acumulada. Registramos como difícil mais pela altitude e pela distância e número de dias. A maior parte da trilha não tem dificuldade técnica e é muito fácil de seguir. Os trechos mais duros foram a travessia do glaciar entre Gokyo e Dragnag e o Chola Pass.
Quem organizou e os guias
Fomos convidados pela Suzy e pelo Evandro, dos Consultores de Aventura, para participar do sonho de conhecer o EBC. O grupo: nós dois, Evandro e Suzy, Willy, Caio e Janaina.
Os guias locais foram da excelente Adventure High Mountain, do Sr. Rinji Sherpa, escalador com mais de 9 cumes do Everest, 6 do Ama Dablam e dezenas de outros. Traslados, hospedagem, alimentação (menos em Katmandu) e carregadores estavam no pacote.
Recomendamos fortemente. O cuidado, a atenção e a disponibilidade do Rinji, do guia Pasang e dos carregadores Jay Kumar Rai, Sangam Rai e Miuan Rai foram fenomenais.
Roteiro dia a dia
Dia 1: Katmandu, voo para Lukla (2.840 m) e caminhada até Phakding (2.652 m)
Cerca de 4,5 km e 4 horas. Saímos do hotel em Katmandu às 6h rumo ao aeroporto, quase sem dormir de ansiedade. Lukla tem fama de aeroporto mais perigoso do mundo, com a pista espremida entre um abismo e uma montanha. A visibilidade não deixou ver a cordilheira, mas o pouso foi tranquilo.
Gastamos uns 30 minutos em Lukla para nos preparar e saímos às 11h. Phakding fica uns 200 m abaixo de Lukla, então o caminho é uma descida longa, de terra batida com trechos calçados de pedra, passando por vilas como Chheplung e Ghat. Não há veículos: só gente, carregadores e animais de carga.
Quase todo o trajeto margeia o rio Dudh Kosi (Rio do Leite), de águas esbranquiçadas, com pontes maravilhosas para atravessar. Chegamos às 15h, depois de almoçar no caminho. Pernoite no Sherpa Guide Lodge, excelente, com banho quente (Rs 300) e comida maravilhosa.
Dia 2: Phakding até Namche Bazaar (3.440 m)
Cerca de 10,5 km e 6h30. Saímos às 8h para ganhar uns 800 m. O piso é parecido com o do dia anterior, mas agora é quase tudo subida. Passamos por Monjo e pelo portal do Parque Nacional Sagarmatha (Everest), que é pago, e almoçamos em Dobhan, a 2.850 m, porque dali em diante só há comida em Namche.
Depois do almoço vem a subida forte e longa de uns 600 m. Logo no começo cruzamos a Ponte Hillary, a mais alta até então, com uma vista de tirar o fôlego. Passando dos 3.000 m, o ar rarefeito começa a se fazer sentir.
Chegamos às 14h30 com garoa e ficamos no Yak Hotel. Choveu o resto do dia e a temperatura ficou na casa dos 5 °C. Banho a Rs 500.
Dia 3: aclimatação no Hotel Everest View (3.880 m)
Cerca de 5 km e 3h30, ida e volta a Namche. A trilha até o hotel tem menos de 2,5 km, sempre subindo, boa parte numa escadaria de pedra sem fim e, perto do hotel, uma relva bonita. De lá se veem várias montanhas, entre elas Ama Dablam e Everest.
O dia estava nublado e não vimos Everest nem Lhotse. O Ama Dablam apareceu de relance, e o Thamserku se mostrou inteiro. O objetivo principal foi cumprido mesmo assim: subir a quase 4.000 m e voltar para dormir abaixo de 3.500 m.
À tarde visitamos o Everest Museum (muito bom) e as lojas de Namche, como North Face, Sherpa e dezenas de lojinhas locais. É mais uma chance de comprar o que faltar. Segunda noite em Namche.
Dia 4: Namche Bazaar até Phortse Thanga (3.680 m)
Cerca de 8 km e 5 horas. A trilha sai larga e calçada, cheia de gente indo para o campo base. Logo no primeiro quilômetro avistamos o cume do Everest sob um céu muito azul, num mirante com Everest, Nuptse, Lhotse e Ama Dablam.
Numa bifurcação, a direita segue para o EBC e a esquerda para Gokyo. Pegamos a esquerda, numa trilha de chão mais estreita, com escadas de pedra e uma subida bem longa. Almoçamos em Mong, a 3.970 m, e descemos uns 45 minutos até Phortse Thanga, num vale majestoso.
Chegamos cedo, tomamos banho e passamos a tarde jogando pôquer apostando milho de pipoca.
Dia 5: Phortse Thanga até Machhermo (4.470 m)
Cerca de 8,5 km e 6 horas, só subida. No meio da manhã passamos dos 4.000 m. Almoçamos no Mountain View Top Hill Lodge, o melhor restaurante até ali, e às 13h seguimos. Em 1h30 estávamos em Machhermo.
No caminho fica Dole, que é opção de pernoite, e o mirante Choyo View. Noite bem fria, mas confortável no saco de dormir.
Dia 6: Machhermo até Gokyo (4.790 m)
Cerca de 7 km e 4 horas. Amanheceu abaixo de zero. A trilha não é tão inclinada e margeia o rio, com alguns trechos de escada e alguns pontos de água (pelo menos em abril).
Depois de uma pequena ponte de aço aparece a primeira e menor das lagoas (Long Ponga), de águas muito claras. A segunda (Toboche Tsho) é maior e o visual é de tirar o fôlego. A terceira, a maior, é onde fica a vila de Gokyo. O lodge era muito bom, sem internet, mas com vista do restaurante para o lago.
Perto de Gokyo fizemos também um passeio curto até um mirante no início da trilha para o Chola Pass.
Dia 7: Gokyo Ri (5.360 m) e travessia do glaciar até Dragnag (4.700 m)
Cerca de 6,8 km e 7 horas. Acordamos às 4h, tomamos um café preto e saímos de madrugada. A subida do Gokyo Ri é toda por encosta de pedras e terra solta, o que deixa a caminhada bem lenta. Levamos entre 2h15 e 3 horas, como o Rinji tinha previsto, e lá de cima vimos o Everest ao longe.
Descemos para o café da manhã em Gokyo e partimos para Dragnag. Para nós foi um dos trechos mais difíceis: atravessar o Glaciar Ngozumba, longo e todo de pedras soltas, com uma encosta bem íngreme que precisa ser vencida com cuidado. Chegamos a ver uma pequena avalanche. Por causa do gelo, essa trilha muda todo ano.
Chegamos a Dragnag bem cansados, com muito vento frio, e jantamos cedo.
Dia 8: Dragnag até Dzonglha (4.830 m) pelo Chola Pass (5.368 m)
Cerca de 9 km e 10 horas. A Carol estava com falta de ar por causa da altitude, então nós dois saímos mais cedo com o guia Pasang, às 3h30, com -12 °C. O sol apareceu pouco antes das 6h e melhorou tudo: temperatura, visual e ânimo.
O caminho vai ficando pedregoso até o Chola: uma encosta rochosa íngreme, com degraus de pedra e cabos de aço para ajudar. É a montanha que separa o Vale de Gokyo do Vale do Khumbu, bem difícil por estar acima dos 5.000 m.
Do outro lado, uma breve descida até o glaciar, dessa vez andando sobre gelo, e uma longa descida até Dzonglha, onde o vento é forte e castiga bastante.
Dia 9: Dzonglha até Lobuche (4.910 m)
Cerca de 6,3 km e 3h45. A água das garrafas e o suor na janela congelaram: dentro do quarto fazia uns 0 °C. Saímos às 8h30 por uma trilha estreita que serpenteia a encosta, sem dificuldade além da subida longa. Deu para fotografar yaks deitados tomando sol.
No meio do caminho voltamos ao trajeto tradicional do EBC, mais largo, calçado e movimentado. Perto do fim, a primeira neve que vimos no Himalaia.
Dia 10: Lobuche, Gorakshep (5.140 m) e Everest Base Camp (5.364 m)
Cerca de 10 km e 7h30. Saímos mais cedo de novo, porque a Carol sentia bastante a altitude. A neve do dia anterior foi derretendo com o sol. A subida é tranquila até um trecho mais íngreme de pedras soltas (Lobuche Pass), com muito movimento de gente indo ao EBC.
Almoçamos rápido em Gorakshep e seguimos por uma trilha estreita e pedregosa. No meio do caminho dá para ver o Everest atrás do Nuptse. Mesmo acima dos 5.000 m, ainda faltam quase 4 km de desnível até o topo.
Visitamos o campo base com as explicações do Rinji e voltamos a Gorakshep com muito vento frio. O lodge de lá não tinha banho.
Dia 11: Kalla Patar e descida até Periche (4.240 m)
Cerca de 13,4 km e 7 horas. O Rinji deu duas opções: sair às 3h para o cume do Kalla Patar (Kala Patthar) ou às 5h até o primeiro platô, com a melhor vista do Everest. Escolhemos a segunda e subimos com -16 °C para ver o Everest atrás do Nuptse.
Depois do café, descemos pelo caminho já conhecido até Lobuche. Passamos pelo memorial dos que morreram na montanha, onde tiramos foto com o de Scott Fisher e deixamos a foto da Ana Luiza, nossa filha, a montanhista que nunca teve a oportunidade de subir uma montanha mas enfrentou desafios maiores que o Everest.
Do memorial, uma descida forte (Thokla Pass) até Dughla, onde almoçamos, e depois uma descida suave e longa, com neve caindo, até Periche (Pheriche). Lodge muito bom, com banho bem quente.
Dia 12: Periche até Namche Bazaar
Cerca de 19 km e 8h15. Amanheceu abaixo de zero de novo, depois de uma noite de neve fraca e constante. Com a altitude caindo, ficamos mais ágeis.
Antes do almoço paramos no Mosteiro de Tengboche. Não é permitido fotografar lá dentro, mas vale muito a pena. Depois, uma descida longa e forte (haja joelho) e, antes de Namche, mais uma subida forte. Chegamos no meio da tarde, ainda com energia para andar pela cidade.
Dia 13: Namche Bazaar até Lukla
Cerca de 19 km e 7h15, a maior parte descida. Almoçamos em Phakding, nosso primeiro pernoite, e dali a descida do primeiro dia virou subida. Com a altitude abaixo dos 3.000 m, ficou tranquila. A Carol, que mais sofreu com a altitude, foi a primeira a ver o portal de Lukla.
À noite, jantar de comemoração com o Rinji, o Pasang e os carregadores, com música nepalesa e dança.
Dia 14: voo de Lukla para Katmandu
O aeroporto fica a menos de 10 minutos a pé do hotel. Pegamos o voo das 7h30, vendo o Himalaia se afastar pela janela, com o gostinho de quero mais.
Altitude e aclimatação
- Acima dos 3.000 m, logo depois da Ponte Hillary, o ar rarefeito começa a pesar.
- Passamos duas noites em Namche Bazaar. No dia de aclimatação subimos a quase 4.000 m (Hotel Everest View) e voltamos para dormir abaixo de 3.500 m, para o corpo se acostumar.
- A Carol sentiu falta de ar nos dias mais altos. Nesses dias saímos mais cedo que o grupo, com o guia, para ir no ritmo dela.
- Os dias acima de 5.000 m (Gokyo Ri, Chola Pass, EBC e Kalla Patar) começam de madrugada e com frio forte: pegamos -12 °C no Chola Pass e -16 °C no Kalla Patar.
- Na descida, a altitude menor deixa todo mundo mais ágil.
Atenção: o trecho de Gokyo a Dragnag atravessa o Glaciar Ngozumba, de pedras soltas e com encosta íngreme, e a trilha muda todo ano por causa do gelo. O Chola Pass tem encosta rochosa íngreme com cabos de aço, acima dos 5.000 m. Vimos uma pequena avalanche no glaciar.
O que levar
- Mochila de uso diário e uma duffel bag para os carregadores, respeitando os 15 kg por pessoa do voo para Lukla.
- Saco de dormir para temperatura negativa: não há aquecimento nos quartos, só nos restaurantes.
- Papel higiênico: nenhum banheiro da trilha oferece. Dá para comprar em Lukla.
- Filtro de água portátil e cloro. Filtramos a maior parte da nossa água.
- Roupa para frio abaixo de zero. Chinelos e algum casaco podem ser comprados em Lukla e, principalmente, em Namche Bazaar.
Custos e dicas
- Voo: fomos do Brasil a Katmandu via Doha, mais de 30 horas de aeroporto a aeroporto.
- Documentos: estude bem o que o Nepal exige. Em 2022 eram vacina de Covid-19, vacina de febre amarela, formulário de Covid-19 do Nepal e formulário de imigração e visto. O visto no aeroporto custava US$ 50 por pessoa.
- Katmandu: reserve um tempo para passear na cidade. Vale muito a pena.
- Água e lanches: dá para comprar nos lodges.
- Banho e carregar celular: são pagos, entre Rs 300 e 500 cada. Carregar powerbank costuma ser mais caro.
- Internet: o 3G/4G da Ncell só funciona até Namche Bazaar. O Everest Link (wifi) custa Rs 2000 por 30 dias, mas não estava disponível em alguns lodges. A outra opção é o wifi de cada lodge, uns Rs 500.
- Comida: a comida sherpa é muito saborosa, com várias opções vegetarianas e veganas. É bem apimentada, peça para tirar a pimenta se não gostar. Se for comer carne, prefira frango: a carne vem de Katmandu e, se os voos são cancelados, fica sem refrigeração.
- Quartos: em geral para duas pessoas.
Câmbio de referência: US$ 1 = Rs 120 (rupias nepalesas), em abril de 2022.
Mapa e perfil da trilha
O mapa interativo vem do Wikiloc, com o trajeto, o perfil de altitude e os pontos marcados.
Nossos registros no Wikiloc
Fomos 2 vezes. Cada registro tem o trajeto, as fotos e o GPS para baixar.
Fotos
Fotos: Carol e Marcos Varella.
Perguntas frequentes
Quantos dias leva o trekking ao Everest Base Camp passando por Gokyo?
Fizemos em 14 dias, do voo Katmandu para Lukla até a volta a Katmandu, com 13 noites na trilha, sendo três delas em Namche Bazaar.
Qual o limite de bagagem no voo de Katmandu para Lukla?
O voo só permite 15 kg por pessoa. Levamos uma mochila de uso diário e uma duffel bag, que ia com os carregadores.
Tem internet na trilha do Everest Base Camp?
O 3G/4G da Ncell só funcionou até Namche Bazaar. Depois, usamos o Everest Link (wifi, Rs 2000 por 30 dias), que não estava em todos os lodges, ou o wifi pago de cada lodge (uns Rs 500).
Precisa levar saco de dormir para o Everest Base Camp?
Sim. Os lodges não têm aquecimento nos quartos, só nos restaurantes. Há alguns cobertores, mas leve saco de dormir para temperatura negativa.






